Não sei bem porquê mas estou assim...
É nos dentes que lhe ficam as palavras. Na porcaria dos dentes, pensa. Há tanto tempo que lhe quer dizer que a ama, e que é por isso que talvez alguma coisa tenha que mudar. Nunca consegue. Todos os dias se repete a sensação: vai falar, mas as palavras tropeçam na faringe e na laringe, estendendo-se na língua até baterem nos dentes cerrados. Nunca passam daí. Nunca conseguem. Agora ela passa a ferro uma peça de roupa qualquer e ele tem pena dela. Deles, aliás. Dela e dele. Tem que fugir àquela sensação de que a vida lhe está a escapar por entre os dedos das mãos como areia fina da praia, e liga a televisão com o som alto para se conseguir abstrair. Hoje não vai dizer nada. Talvez amanhã.

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